A metaliteratura em Paulo Caspa


           

              Paulo morto, Paulo Caspa carbonizado no chão: era uma desgraça: o conto deixado incompleto, aliás mal principiado, escrito só

Acordou no meio da noite suada e com o coração aos saltos

e mais nada,  frase fraca, irrepetível na mão de um escritor — irrepetitível na boca dum leitor, pior ainda. E fora justo ela o seu último naco deste mundo. Mal teve ideia de meter uma pontuação, foi quando se levantou o computador.

Paulo Caspa ficou devendo a revisão do texto.

 

Contataram o fabricante, e ele que não, não temos registros de acontecimentos desse tipo, pequenos mal funcionamentos, sim, mas nenhum que ferisse gravemente, pegasse fogo assim, quanto mais matar. Chegaram histórias de Nova Délhi, Massachusetts, João Pessoa, nada nem carioca nem provável; o fabricante respondia: não é produto dos nossos.

Os investigadores sabiam e sentiam, colado ao caso, um descaso geral quanto à morte do famoso escritor, culpa de que havia ficado ridículo. Quando neném ainda, era um simples acidente; crescido, pegou umas feiuras homicidas, que o escritor estava até os ombros metido na torre do computador, caminho aberto a cabeçadas, e lambidos ele, mesa, papeis, livros, entre  outros infelizes, por um fogo que ninguém sabia o berço. Aos tropeços, jornalistas contavam os tropeços da investigação, esta gaguejando ora assassinato ora suicídio; acabou ela mesma enterrada.

Polícia nenhuma soube, enfim, o acontecido. Idiota é apontar dedos: culpa nenhuma tiveram, que o caso envolvia dessabedorias que não dão camisa a ninguém saber. A verdade é que foram cinquenta e três suicídios e cinco homicídios, um deles passional. Paulo Caspa não foi autor de crime algum além de seus escritos. Foi reservado, assim, seu lugar de vítima.

 

Esperar por Graciliano ninguém mais esperaria, inclusive duvidavam alguns da possibilidade de seu retorno — que o escritor havia se esquecido dele, que estava perdido, que estava emprestado. Nunca houve pretensões revolucionárias, era assunto de urgência e só. Cometeram.

Como combinado: a máquina, primeiro passo; do alto da parede, prateleira pairando sobre a mesa e a luta, eles observavam. Se ainda vivo a essa altura, Paulo Caspa ouviria naqueles estalos e retorcer metálico um quê de choro, tristeza causada por um filho natimorto.

Daí a segunda etapa, etapa dos ensaios, resenhas, textos incompletos, teóricos xerocados, manuscritos, bilhetes, papeis avulsos. Todos se incendiaram nos conformes do plano.

Na prateleira, alguém veio com

— Poetas primeiro.

e caiu uma confusão quando, em raiva e resmungos, João se jogou nas chamas. Acabou que deu desordem, foram todos se atirando. Charles e Arthur juntos de Murilo e José; João ­— Rosa, mas vermelho por fora — foi logo depois, e uma Clarice — não foi a única — pulou duas vezes; para a maioria, nem Alberto nem Manoel pareciam se importar muito com o que estava acontecendo: engano deles.

Problema: de ingênuo, um jovem se prendia à borda gritando que não não vou. Os outros não tiveram pena, que lhe achavam desses bem mimados. Outros três problemas foram solucionados assim mesmo ou parecido.

Com o fogo, vieram gentes, bombeiros, polícia. Enfim, coisas que sucedem.

 

Quanto a Graciliano, estava de xingar alto, prisioneiro — de novo, de novo — de outro escritor, um Joaquim Tavares, o qual casualmente transformou um empréstimo num pequeno furto. Foi entrevistado na onda de Paulo Caspa morto, junto com os demais escritores com um quê de fama amigos do tal. Passar na televisão ninguém passou, mas em algum lugar estão guardadas e revoltadas suas palavras mentor, mestre, amigo, devemos muito, sentimos muito, um grande choque.

Joaquim mesmo, com pitadas inventadas: certeza de que a nossa geração aprendeu muito com Paulo Caspa.

Conversavam muito, os dois. No intuito de inveja, trocavam ideias de romances. Um esquema que Paulo Caspa revelou girava em torno de duas personagens tristes, personagens fêmeas, ambas personagens escritoras, uma personagem da outra, tendo ela mesma seus próprios personagens, e tudo isso em páginas de citações personalizadas. Ele morto, Joaquim se convenceu de dar caminho ao romance — aos milímetros, foi se convencendo que era menos plágio que homenagem.

Embalado no mudo dos protestos de Graciliano — já tinha reunido uns cinco à causa —, Joaquim lia na cama.

Tinha o costume de grifos: lápis, como garra, cortando afiado, afiadíssimo.


Todos os assentos estão ocupados

— Tem espaço aqui no auditório não, cabô, que ocuparam tudo.

Geral das gentes arrebanhada lá pra fora em pisões, cotoveladas. Telão foi um jeitinho que arranjaram, mas pelo menos arranjaram, pô. Placa não pise na grama só ganha mesmo de quem põe os pés no chão. Diz que foi o caso duns e outros, sei lá, um dois dez, mas se esbarrei num desses não fiquei sabendo. Se soubesse, seria assim de agradável abrir as cabecinhas desses caras, feito lata, tirar suas mentes do molho. Diz que foi o caso duns e outros.

Isso é a frente da Assembleia das Questões Universais e Atuais, AQUA; e eu aqui rodando em roda de amigos. Daí vem Seu Guarda, estufa bem a farda e estabaca a gente com um vocês jogaram essa garrafa aqui, vocês tacaram essa bomba em mim. Ninguém se chocou quando veio a tropa de choque.

 

As coisas começaram lá no Centro, comigo caminhando e segurando as compras: uma porção de pessoas povoando a praça. Pra mim, uns desocupados ocupando as coisas por aí, besteira tanta a ponto de não passar em nenhum jornal, que é lugar de assunto sério; porém eu até me embasbaquei com a vista — bastante cor, cara, vi bem, e num alvoroço vivo de bicho respirando —, daí já era, me agarrou.

Agarrado mesmo, pelo pulso — rapaz lá pelos vinte anos me puxando pro meio do pessoal. Acabaram contadas as aspirações do movimento, além duns contos admiráveis daquele mar: uns peixes fazendo música, outros pintando, e tinha teatro! até poetas! Verdade que hoje já esqueci tudo dito pelo rapaz, mas naquele dia mesmo repeti tudo lá em casa.

Mamãe e irmão de Ah, tá; de início papai ficou quieto, depois broncou. Fiquei meio assim, vermelho e até desencantado, com a gente da praça depois de papai ter me dito aquelas coisas todas. Que eram uns adolescentes drogados, dragados pra fora da realidade, negligentes e indecentes. Mamãe partiu do Ah, tá para o lado do papai, piorando a situação — meu irmão só partiu foi pro quarto dele, indiferente.

Findada aí minha carreira de ocupador, então; verdadeiramente ceifada, sim — assim receosas sussuravam, no ocioso da cama insone, minhas aspirações, já moribundas, de protesto e arte, liberdade e justiça, polícia e ladrão, capa e espada. Nada! engano meu: a lembrança da praça, que tinha teatro! até poetas!: eu queria um palco só pra mim, pra eu ser poeta em cima.

 

Agora eu sou, e sou em um palco, porque agora sou aqui.

Arranjei uns amigos tão engajados quanto eu, vieram com essa da tal Assembleia. Diz que ideia era de dar os porquês de tudo que tínhamos dúvida, os motivos todos da gente sair às ruas. Amigão meu objetou: se todo mundo tivesse resposta, não vamos ser ninguém.

— Pô, sou condor justiça e justamente porque vejo mais longe que esses zés. Porque sou piedoso, guio eles pra puto nenhum cair em buraco. Vamos ser poetas como, Jão, se darem essas respostas e todo mundo for igual à gente?

Tempinho depois, tava decidido: abaixo a Assembleia! dessa AQUA ninguém tem sede! e outros panfletos. Engraçado que não foi unânime, que boa parte da praça não aderiu — mais da metade, aliás. No fundo no fundo, isso representava que a gente voava era mais alto que eles, uns alienadinhos.

Se alguém tacou qualquer coisa mesmo ou fez ofensa, tá aí fato desconhecido. De fato feito mesmo, só a tropa de choque. E até que encararam bem — encararam e não encaramos, que eu corri. Atrás de mim os soldados marchavam tropecando em mochilas óculos cartazes pés, pedras, paus, bombas. Ordens. Cabeças.

Eu não sou de apanhar — por que vão me tomar pra soco? Não vão, pois não faz parte das minhas dignidades. Fazem parte: teatro, seiscentos lugares, os assentos todos ocupados, palco, cortinas, holofote se abrindo em mim. Da minha ordem, luxo, mesa feita, só comida boa e farta.

E é pelo ar deste restaurante ser condicionado que me esqueço da fumaça branca daquele gás de lágrimas. Pedi um vinho merecido. O velho mergulha as mãos no isopor e emerge uma água para mim e pergunta que porra tá acontecendo ali? é muita polícia e a água é um real — real mesmo é o vinho que me dá. O garçom tá demorando a estender o guardanapo no meu colo, mas eu, educado, aviso que não, não tem problema, eu não vou nem descontar a sua gorjeta, rapaz, mas só porque o ambiente aqui é bom muito bom e esse assento é agradável, acolchoado, não me levantaria daqui nunca se pudesse.

Céus, o meio fio é um conforto só.


onde perdemos tudo

Assim como, acredito, ainda está para nascer alguém tão conhecedor de Jácome Gol quanto Alex Castro, não há ninguém melhor municiado para dissertar sobre a obra desse surpreendente escritor paulista quanto o próprio Gol, fonte da qual Castro bebeu muito bem. Por isso mesmo, tomo a liberdade de roubar para esta resenha um trecho de A Possibilidade das Melancias, quinto — talvez o melhor — conto de A Ascensão das Bananas, de 1952. Temos nele teotônio de umbu, cujo nome se escreve assim mesmo, minúsculas apenas, sequela de uma vida inteira como servidor público, em um de seus espasmos perante a morte futura:

Ela com os joelhos no mar, a rezar. Já ele seguia, descalço, caminho inverso ao de mais cedo. E até os muitos percalços recentes lhe foram apagados da mente quando ele, agora virado novamente para o Atlântico, na espera da reza de Isabel, fitou as pegadas: seu rastro, seu nome entalhado no mundo.

Encaixou sem intenção de nada o pé na pegada, sentindo o fundo; percebeu a tragédia pouco tempo depois. Tragédia sim, pois tinha destruído a sua própria marca: a pegada de antes não era em nada parecida com a sua carrasca de agora. Para piorar, não haveria maneira de impedir que o vento levasse as outras para longe — quem poderia, aliás, garantir que isso já não estivesse acontecendo?

O que é a perda em Alex Castro? Ela é para o mundo assim como o passado é para o tempo, ou seja, algo que passa e consequentemente deixa de vigorar? Ora, a morte do cachorro está lá como realização de uma travessia feita pelo e no próprio personagem principal, e também outra pela e na própria Fiona; estariam perdidos aqueles que eles eram antes? Tanto não estariam que, na presença um do outro, há a dor de, ao mesmo tempo, se reconhecerem e não se reconhecerem, e talvez seja aí que jaz a perda. A angústia gera a urgência do descobrimento daquele instante onde tudo nos escapa, mas a busca, a espinha de A Morte do Meu Cachorro, acaba sabotada por nós mesmos. Onde perdemos tudo? Se fosse para apostar, eu diria que em nossos bolsos.

É a partir do lidar com a perda que temos também o caso de Jaqueline e Ramiro e, no conto seguinte, o de Laís; tais histórias se diferenciam, principalmente, pelas lágrimas. O que há nas lagrimas de Laís que as torna diferentes? Novamente, chamo Jácome Gol para nos indicar o caminho, trazendo o trecho seguinte à constatação de teotônio citada acima:

Mas quem poderia, também, ter avisado a este homem que, embora o vento apague os passos na areia, nada jamais é apagado no tempo?

Na introdução de onde perdemos tudo, Alex Castro escreve que aqueles contos só poderiam ser escritos por quem os escreveu. Por isso, por tocar no conhecimento de que o passado passa e fica, sendo a matéria prima do futuro; por experimentar que é a partir das perdas que se ergue a construção; por testemunhar a imortalidade de uma pegada na areia é que os contos de Alex Castro são tão honestos com seus leitores. E tão recomendáveis.

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Estrela duns muitos watts

O pequeno gaguejando de escuro: que a luz tá piscando, papai. No desajeitado meu, canhoto à força, a lâmpada nova esparramada no chão; e, ai, fucei fucei armário e não encontrei outra de jeito nenhum! Depois dois olhos mínimos, sem apontar de dedos, e sabidos que me é difícil trocar uma lâmpada desde uma buzina na Monsenhor Félix às nove e vinte nove da noite e os pneus doídos, a cara asfaltada, o braço estendido no chão.

Deixei acesos aqueles olhos com uma vela — assim não bruxuleia. Desparafinei pro laranja da rua, descolar mais uma elétrica.

 

A lua era só a lua até vovô meter nome de lua pela goela dela. Apontava pro alto, desabava tudo; foram nomeados abaixo, implodidos, o avião, o balão, as nuvens, estrelas, a lua — foi quando, do alto do colo dele, pedi, vovô, cata ela pra mim jogar bola.

Meu velho sorriu Via Láctea: você é tão pequeno; pega outra coisa, pega uma estrela.

Escolhi. De nota fiscal e garantia.

 

— Tenta essa aqui, se não funcionar tu volta que devo ter sobrando mais alguma lá pelos fundos.

E eu que não, não, pro dono da birosca, ele nem precisava se incomodar tanto assim. E ele que sim, sim, não vô deixar ninguém no escuro se o menino tem medo. Daí foi apertar minha mão, estendeu a direita, viu que não tava direito, pintou até o bigode de vermelho — mesmo depois de eu ter jogado uma água ainda pingava tinta.

O assunto se puxando sozinho: sabe o que a patroa me arrumou lá pelo início? — fui dizendo — me pegou estranhada em casa, avisou que meu filho quis saber o porquê de me faltar o braço direito. E ela se saiu mal, muito mal: botou medo no bicho! contou uma verdade pra ele! contou que, quando eu finalmente fui tirar o relógio do pulso, ele não quis, e o jeito que foi, ora, foi este que ficou sendo.

O velho procurava procurava, escavava uma graça — um olho vez ou outra pendendo no que me falta —, um túnel que desse pra fora daquele desconforto; e achou:

 

Tu estende bem estendido, ó, e tua mão, a mão que tu escreve, qual é? a tua mão bem aberta, daí prende, com esses dedos assim; agora é girar; girou, filhote? Ai, mas não fica triste.

Seguinte, quando essa minha tremedeira acabar, e vai, eu dou algum teco certeiro na estrela lá pra ela cair. Teu cachorro vai trazer ela no dente pra ti. Mas guarda bem qual é, certo? Bem capaz eu esquecer.

Mas daí pra menos de ano vovô piorou nas esquecidas, mais tarde voltou pro silêncio; era agarrar a estrela na marra então, sem essa de teco. Só que as coisas correram, o carro correu demais, e por cima de mim, e os faróis.

 

Não há sequer dois faróis no céu, enfumaçada a cidade. Mas, se teto estrelado não há, há tapete: os morros, prédios, as casas enfiadas em tomadas; brilho doido do olho azul dos televisores; as cadentes horizontais — placas de Rio de Janeiro. Tudo isso, olhado de baixo — eu, metro e sessenta, birosca com pagode lá pra trás, apertado entre apartamentos, escorrendo pra casa — olhada de baixo pra cima, ela tem um naco de céu sim, até que dá pra confundir. Se isso é trapaça ou algo originário, pouco importa; basta só: é uma verdade pra míope ver, e ocorre que minha vista é meio bocó.

E, na miopia, enxergo bem! tá lá, vê? é ela, e como brilha! como antes! A mão espalmada à frente, sinto o calor.

 

A palma da minha mão direita queima. Giro. Encaixo a outra.

— Ei, filhote, sabe quantas pessoas são necessárias para trocar uma estrela?

De imediato, respondeu que papai. Sorri Via Láctea.


Abraço pra remendo

Deste jeito: dum pá dum dum, dum dum;  a base, batida; um e outro sonzinho além, uma mulher cantando. E só — só que aí teve

— Ô, Seu Júlio, ó, tá ligado que teu turno terminô, num tá?

dum dum.

O falô-comigo não teve resposta; um qualquer olhar do rapaz, ele depois pôs o celular ao ouvido de novo. Ônibus sem espaço, a música alta — impossível ninguém mais ter escutado. Fui falô-comigo pra mulher mais perto — porque, lembrando, ouvi foi um falar fêmea —, ela não sabia de coisa alguma, e de mais outras duas nada consegui também.

Mas jeito mesmo não tinha — pra quê enganar? —, foi a mulher da música. E eu dum dum, dum dum, dum pá dum dum ou um troço desses assim; esperando, espreitando o rapaz com seu celular tocando, a mulher cantando. A roleta rodando

mas a catraca imóvel. Um barbudo me vinha com uma dessas pra abrir caminho, escarcelava já ter passado cartão. Na cabeça cobradora, já tinha até cimento em mandar ele parar com a palhaçada, que é tudo eletrônico ali e ser malandro não dá camisa. Porém, apenas apertei o botão e o barbudo girou para mais fundo no ônibus.

Voltei a cabeça e ouvi: a mulher sumiu! o rapaz pôs celular no bolso, deu sinal, desceu, fugiu! e nem era possível vê-lo na calçada mais. Meu querer-descer embarreirado pelo horário de trabalho. E daí fui só olhando no relógio, pois ninguém garante que eu não possa alcançá-lo, e perseguindo as horas, pois volto mesmo pro ponto em que ele desceu e bato de porta em porta procurando, e intimidando os ponteiros que eles se queixaram de mim, trêmulos, às autoridades. Aflição assim por causa de um comentário que uma moça te fez? Ai, foi a mulher da música? Você é louco, Seu Júlio.

O horário veio como quem não quer nada: quase fim de expediente — era o final mesmo, no final. Quando deu o tempo de descer do ônibus, fui me despedir do piloto. Rapazote ainda, poucos dias no volante; certeza de que ele estranhava o intenso da minha despedida, não compreendia que, meu jovem, vô indo embora pra sempre porque tenho menos anos que você, óquei? O garoto era meia boca de um sorriso. Deixei-o para ir ao banheiro, onde me descobri azulescido.

Atrás, minhas costas, na altura da cintura, onde a camisa não cobre depois de muito sentado: azul cinzento, cor de banco de ônibus: fui tomado pra assento de cobrador. Coçava. Parecia que ia doer, mas nada de dor — mas o horror depois! raspada a cor até o vermelho, sem que eu sentisse nada. E, por esse nada, ignorei: contanto que não doesse… mesma coisa pensada depois, no levantar-se do vaso e perceber a bunda toda tomada daquele ex-branco sanitário; só fui arrancando — maior o esforço: fui feito de leito até mais fundo — e saí.

Talvez houvesse apelo de papel a ser assinado, documento a ser entregue; deixei essas coisas no talvez. Aposentei-me delas também.

 

Lar.

Rotina é comer na sala, a mesa da cozinha é pros três.

— Vai pro sofá, pai, que falta uma cadeira que tá quebrada; tá quebrada e tem que trocar.

O outro comia: grão de feijão e silêncio pendurados na barba e mastiga mastiga. Minha neta às pressas no percurso ao quarto, depois de ter comido a passos largos. Não fui jantar, sequer me chamaram; fiquei no meu quarto de fundos: nada vi disso. Mas vi.

Meu corpo: verde-claro do pijama, pescoço até tornozelos. Só uso camisas de botão, mais fáceis de se tirar, e os cintos joguei fora, que qualquer calça faz-se pele; isso para sair, pois prefiro ficar nu no quarto. Antes, demorava para que eu fosse tomado, e agora a cada toque há um aferrar-se que pede força para quebrar. A abstinência de toque devolve a pele — todavia os pelos fazem greve —, mas já perdi os pés: no contato sempre com o chão, já não distingo unhas.

Pior mesmo é acordar prisioneiro de manhã. Pouco durmo — método para sono sem desapegar-se da própria face: 1º estar até os ombros pendurado para fora da cama 2º ter certeza de estar fixado antes — mas basta para o emprego de caixão dos lençóis. Daí lavo-os todos os dias.

E antes de dormir eu ligo o rádio — antigo, madeira, estava direito até umas semanas atrás — ligo o rádio, contemplo. Não há necessidade de concerto; esse rádio funciona até sem funcionar. Tomado de estática, eu espero por.

Hoje dei adeus aos meus pés: sinto-os presos aos sapatos até o osso. Do jeito que está, incomoda. Minha neta já ganhou a calçada — depois eu vejo esse problema.

Lá em casa, fui esnobado de grudento — coisa que ainda não fiz: manter a mão em alguém e ver se pega igual ao resto — porque levo a neta pra escola. Ela rosna que eu pare na esquina, então eu paro; depois que ela passa do portão, vou andando.

É que minha neta é berço sem choro. Quando você se toca de não ser precisado; agarrando o silêncio pelo rabo, você o interroga e ele aponta pro berço. Daí chorar não surte efeito — a demanda nunca foram lágrimas — não surte efeito e bate na gente assim mesmo.

Nunca existi nos seus tempos de ninar, mas será que agora não dá? Por isso, quando me vou, é só para alguma caminhada, depois retorno à parede daquela esquina; isso tudo não decorre em mais de uma hora — ela entra meio dia, sai final de tarde.

Lá longe, conversando com duas meninas: ela é a menor do grupo. Os trejeitos não são os caseiros

(algo me machuca a espinha)

chega um garoto — transparente que é mais velho —, ela parece feliz: se abraçam e provavelmente há um beijo

(um dedilhado nas costelas)

seguem a rua: ela não voltará para a casa agora; ouço palavreados e gargalhadas ao longe

(este prédio está me abraçando pra remendo)

ele tem reboco desnudo, suas fundações são todas umas indecentes e minha mão enterrou-se nelas. Suor para tirá-la de lá — não quero ver-lhe o estado — e também para as pernas: assediadas até o joelho pelo cinza da calçada. Eu travado feito areia movediça da tevê. E força. E liberto! mas agora segundos de contato bastavam para me prender de novo, então corri — corri pro lado oposto da minha neta, que não quero constrangê-la na frente dos amigos.

E meus ossos não se sentiam! de tão imbuídos por cimento. Em anos! em anos!

A base, batida — é de dentro do tórax ou daquele carro ali passando? —; um e outro sonzinho além; fez-se rápida rápida até transformada ruído contínuo, em linha reta — em linha reta diante de mim estava um ônibus esvaziado quebrado estacionado e daí invadido por mim.

E o vermelho da catraca era lindo! quente! Passei uma perna em torno, o braço do outro lado, fiz nó — aposentados, os ossos. Aquele calor era de derreter asfalto e eu era um asfalto de sangue e era tanto sangue.

Dois, dentro do ônibus: um disse ei, vem cá e o outro atendeu quê foi?

— Deixa de zoação comigo, que essa catraca tá é funcionando muito bem, moleque.

— Nada! nada! Tá ruim desde faz pouco tempo: tem que trocar.

— Tu tá é de malandragem, isso sim. Para com isso que tu ainda tem muito turno pela frente, novato. A catraca, ela tá bem e não precisa de troca. Até pintadinha, cara e jeito de nova. Não precisa de troca. Vá trabalhar.


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